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Terca-feira, 24/11/2009

Risco Virtual


*Por Rafael Sigollo


"Acabei de sair de uma teleconferência. Só falei besteira e quase dormi sentado". Pelo teor da declaração, imagina-se que ela tenha sido em tom confessional, para um amigo bem próximo, como um segredo. Mas a mensagem foi escrita na internet, por meio do Twitter – espécie de rede social em que cada mensagem não pode ultrapassar 140 caracteres – com nome e foto do autor. Como alguns colegas de trabalho estão entre os contatos do indivíduo no site, em pouco tempo todos os que participaram da mesma reunião, incluído chefia e clientes, já estavam sabendo do seu comportamento nada edificante. O exemplo, real, ilustra bem o estrago que o mau uso da web pode causar, especialmente para os mais jovens.


Inserida naturalmente no ambiente virtual, a chamada "geração y", que contempla os nascidos a partir do ano de 1980, beneficia-se da troca rápida de informações, do cultivo fácil das redes de relacionamento e das ofertas crescentes de vagas disponíveis na internet. "Por outro lado, esse jovens se esquecem de que, no mundo virtual, o bom senso e a postura profissional devem seguir os padrões da vida real. Afinal, você está se expondo e é muito fácil passar uma imagem negativa", afirma Renata Garrido, consultora sênior do grupo DMRH.


Para ela, muitas vezes o jovem usa sites como Facebook, Orkut e o próprio Twitter para mostrar o seu lado divertido, e não se importa com as consequências que as fotos, as frases e as comunidades incluídas em seu perfil podem trazer. "O problema é que ele acha que só os amigos vão ver, mas isso não é verdade", diz. Assim como as empresas divulgam suas vagas na web – especialmente para estagiários, trainees e recém-formados – não é raro que também façam a sua "varredura" nas contas que os candidatos mantêm nas redes sociais.


Regina Camargo, sócia-diretora da Across, conta uma história que se torna cada vez mais comum nessa nova relação entre empresas e candidatos. Na primeira pergunta da entrevista de emprego, o recrutador quer saber por que o jovem não gosta de segundas-feiras, referindo-se a uma comunidade virtual da qual ele faz parte. "A pessoa é pega de surpresa e precisa se explicar. Mesmo que seja só uma brincadeira, deve haver responsabilidade em tudo que você faz na internet", afirma.


Renata, da DMRH, concorda. "Não dá para julgar um profissional pelo fato de participar de uma comunidade dizendo que odeia acordar cedo, por exemplo. Isso não faz dele um irresponsável. Mas é bom tomar cuidado para evitar futuros problemas, pois mesmo sem querer, você pode está passando a imagem errada", diz.


Na prática, a falta de maturidade, acaba prejudicando boa parte dos jovens dentro das empresas e em processos seletivos. "Em redes como o Twitter, na qual você escreve mensagens até usando o celular, o cuidado deve ser redobrado. A chance de falar o que o não se deve é grande", alerta Regina, da Across. "É preciso se dar conta de que aquilo é de ‘domínio público’, ou seja, gente que você nem imagina pode acabar lendo".


E se a dificuldade dos mais jovens é controlar o que publicam nas redes sociais, para os executivos e profissionais seniores o desafio é participar delas. O sócio da A2Z Consultores, Felipe Assumpção afirma que existe uma "pressão" para que as pessoas estejam inseridas no contexto virtual, criando conta em sites de relacionamento e produzindo conteúdo, mas é cético quanto aos benefícios que isso pode trazer para quem ocupa os cargos no alto escalão. De acordo com ele, sites focados no aspecto profissional dos participantes, como o LinkedIn, podem ajudar na troca de informações e é importante estar atento às novas tecnologias. "mas sem ter a expectativa de que isso será decisivo para ascensão profissional ou até mesmo uma eventual recolocação no mercado"


Assumpção defende que há padrões de recrutamento a serem seguidos e que eles não passam pelas redes sociais. "O conhecimento sobre o mercado, um relacionamento próximo com o candidato e também com empresas geram as contratações mais acertadas", garante.


Nick Cox, diretor da Europa e países emergentes da empresa de recrutamento Hays, recomenda a participação de executivos mais maduros em comunidades virtuais. Objetivo: manterem-se atualizados. "É uma maneira bastante prática e eficaz de estar em contato com outros profissionais e companhias da mesma área de atuação, além das próprias em empresas de recrutamento", afirma.


Como headhunter, Cox admite que a web é uma das formas de buscar possíveis candidatos para uma vaga, mas não deve ser a única. "Entrevistar pessoas e conhecê-las mais a fundo sempre será essencial em um processo desse tipo. Estar on-line, contudo, pode ampliar esse leque de opções, analisando os cadastros nas redes e as indicações de outras pessoas do setor".


Acostumado a fazer diversas tarefas simultaneamente, os representantes da geração Y administram perfis e interagem em diferentes redes sociais com facilidade. Para os seniores, no entanto, o conselho é participar de poucas, mas eficientes comunidades. "O mundo virtual requer tempo e paciência. Para um profissional de nível executivo, o ideal é focar as energias em uma rede voltada para negócios, na qual ele possa informar, fazer contatos profissionais e agregar valor à sua carreira" afirma Regina, da Across.


Para o sociólogo e analista institucional francês Michel Authier, os avanços tecnológicos estão mudando a maneira de as pessoas se relacionarem em um sentido ainda mais profundo. "A convivência em rede é a base para a torça de informações e a criação de uma inteligência coletiva, principais motivadoras da construção das chamadas árvores de conhecimento", explica. Tal conceito, criado por ele no início dos anos 90, em parceria com o filósofo Pierre Levy, estimula pessoas de diferentes habilidades a formarem. "O método tem sido aplicado em escolas e empresas do mundo todo - como Peugeot, Citroën e Danone – pela TriVium, da qual é presidente.


Na opinião de Authier, o uso da rede mundial já é uma realidade em processos seletivos e no recrutamento para vagas de estágios e trainees. "O uso das redes sociais intensifica a relação entre o candidato e a empresa contratante. Essa é a tendência e empresas brasileiras como a Natura e a Votorantim já têm feito isso com ótimos resultados", afirma.


Acostumadas e atentas às mudanças comportamentais e tecnológicas, as agências de comunicação e tecnológicas, agências de comunicação, publicidade e propaganda também têm testado novos modelos de recrutamento e, com sucesso. "As redes sociais diminuem distâncias e eliminam barreiras. Fala-se mais rapidamente para um número de pessoas", afirma Álvaro Rodrigues, presidente da Agência3 e, aos 37 anos, o mais jovem dos diretores da Associação Brasileira de Propaganda (ABP).


No momento, Rodrigues está avaliando portfólios para contratação de um diretor de arte com experiência no mercado imobiliário. A divulgação da vaga foi feita via Twitter. "Em apenas um dia recebi quase cem currículos, inclusive de candidato de outros países. Você consegue ter foco na busca e atingir o público-alvo de maneira assertiva".


Renata, da DMRH, ressalta que a internet pode facilitar contatos e abrir portas para quem deseja encontrar oportunidades, mas os profissionais não podem depender exclusivamente disso. "Para conseguir evoluir na carreira é preciso se atualizar, desenvolver competências e manter os relacionamentos no mundo real. Sem isso, nenhuma rede social poderá ajudar", diz.